Eu penso (também) assim:

Desejaremos, um dia, o que vivemos: realidade fugaz dos sentimentos,
cheios de paz, de gozo e amor insano!



17 de agosto de 2008

Menino guerreiro!

Não passava das 9 da noite quando chegava em casa. Na esquina, um certo tumulto. Carro de polícia e uma pequena aglomeração de curiosos. Uma mulher nervosa, gesticulava e falava alto. Sem entender, pensei, provavelmente mais uma vítima de assalto. Ao ouvir o choro de uma criança, fui me aproximando. Um garoto de três ou quatro anos, corpo mirrado, pele negra, cabeça quase raspada. Estava de short e camiseta, sandalinha nos pés. Imundo, chorava muito, parecia perdido no meio de tanta gente.
A mulher alterada, desacatava a polícia, falava palavrões e puxava o garoto pela rua. A policia foi embora. A pequena multidão se dispersou. Uns evitavam olhar a cena de perto, outros a chamavam de louca. Um moço, visivelmente nervoso, disse: 'Ela estava pedindo dinheiro no meio da rua, com o sinal aberto, jogando o menino entre os carros. Que absurdo! Eu mesmo pedi que ela não fosse presa, mas agora me arrependo'. E saiu, em direção ao ponto de ônibus.
Enquanto a criança chorava, a mulher, ameaçando voltar pra pista, gritava:
-A Justiça já disse que eu não tenho jeito! Pode chamar o juiz que eu não tô nem aí! Se eu quiser 'nóis' morre agora!

O meu olhar era somente para aquela criança, a vontade era arrancá-la das mãos daquela mulher. Num impulso, fui até ela, ofereci um dinheirinho, com intenção de me aproximar, sabia que isso a acalmaria. Prometi um lanche para o menino, insisti e ela aceitou.
Entramos na panificadora bem próximo. Comprei água e dei pra eles. Pedi que se acalmasse e que sentasse por cinco minutos, para alimentar o filho e depois sim, poderia ir embora.
Quando a senti mais calma, perguntei se tinham uma casa, há quanto tempo ela estava sem emprego, como conseguia se virar.
- Moramos num quarto alugado lá no bairro da Marambaia (periféria da cidade). Esse menino vive chorando de fome. Eu já não agüento mais.

Enquanto ela se queixava, olhei pra criança, os dentes estragados, a roupa rasgada, o corpo agredido pela condição de miséria absoluta.
Sob os olhares desconfiados dos clientes e atendentes do local, comprei dois pães quentes com queijo e um chocolate para o menino. Num gesto idiota, dei a ele lencinhos de papel, para que não pegassem o lanche com as mãos sujas. O garoto abriu o pão ao meio e comeu todo o queijo.
- Me prometeram um trabalho de costureira, depois disseram que não tinha vaga.

Por cerca de meia hora, ouvi um pouco da história de vida daquela mulher. Se naquele momento eu pedisse a ela a criança, com certeza teria ganho um filho adotivo.
- Já dei meu outro filho para uma senhora, nem sei mais onde ela mora.

Um casal, que observava a nossa conversa, se aproximou e disse que podia conseguir um abrigo, roupas e outras doações. Um pouco mais calma, a mulher olha para a criança, olha pra mim, e aceita seguir com o casal.

Voltei para casa a passos lento e em estado de choque. Diante de uma situação de desespero e sofrimento extremo, todo o resto torna-se bobagem. De que adiantam seminários, programas de responsabilidade social, se no mundo real, crianças são empurradas para a morte, todos os dias, justamente por quem teria a missão de ampará-las e protegê-las? A dor e a precariedade humana, uma realidade que agride!

*Foto retirada do flick, de Karol Khaled
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13 comentários:

Miguel disse...

Crys, vou usar um verso de um poema meu de muito antigamente:

Vida vivida,vida real.
Foi mais um caso da vida,
um caso banal!

loba disse...

Como eu já disse várias vezes, não gosto de assistencialismo, de dar esmolas, de ações isoladas. Mas fome tem urgência, sem dúvida! E é dificil julgar qdo a gente nem sabe o que é isso.
Beijo, Crys!

loba disse...

Como eu já disse várias vezes, não gosto de assistencialismo, de dar esmolas, de ações isoladas. Mas fome tem urgência, sem dúvida! E é dificil julgar qdo a gente nem sabe o que é isso.
Beijo, Crys!

Paulo R Diesel disse...

É Crys, a vida nos prega peças e a realidade nos assusta.
Tem muitos que precisam de ajuda, mas tem os que se aproveitam da nossa fé e boa vontade.

Beijo.

Tânia disse...

Crys, até quando vamos (a grande maioria do povo brasileiro e por que não dizer humanidade) assistir esta penúria que aflige somente os mais desafortunados?
Agora concordo com a Loba sou contra esta falsa política assistencialista...
Educação Já, Reforma Administrativa Já, Reforma no Judiciário Já, reforma Tributária Já...FORA O PT ONTEM!!!

Beijos querida

disse...

crys,
infelizmente nao podemos carregar as dores do mundo nas costas...porem.. como vc fez.. a tua parte . pelo menos naquele momento alguem nao ia mesmo que por um pouco nao sentir fome...
e vc reparou bem no ocorrido? notou que se vc nao tivesse os levado para o lanche o casal nao teria como ajudar?
mesmo nessas horas de amargura.. onde ha desolaçao.. sempre ha maos estendidas.. nao se preocupe.. nao se entristeça assim.. vc fez o que devia ser feito e ajudou mais do que pode imaginar...
um gde beijo querida....

Karine Leão disse...

Crys,

Intenso, retrato da realidade de uma grande parte de brasileiros. Não gosto de lembrar o que é fome, já senti uma vez na vida pra nunca mais, minha querida!

Fico pensando qual seria a solução pra nosso país... talvez seria proibir todos os políticos que estão aí de se candidatarem e colocar gente nova disposta a realmente trabalhar pelo Brasil.

Beijo, querida, te espero no Ponto!

QuincasB disse...

lula é seu pastor, nada lhe fartará

Dora disse...

Crys. Também acho que atos isolados de ajuda não vão melhorar o quadro de miséria no país...Mas, como você, eu também não resisto diante da fome diante de mim, me olhando...Vivo fazendo esse gesto de dar alimento a quem está faminto...Já me chamaram a atenção, usando esse termo de "assistencialismo", porém a urgência da fome supera qualquer termo...
Beijos você e admiro seu gesto!
Dora

Dora disse...

Eu quis dizer : "beijo você.."..arrume aí...rs
Bjs de novo.
Dora

Shi disse...

Toda a boxxxxxta é que a gente não deve perguntar "como uma coisa dessas pode acontecer?", e sim "como EU deixo uma coisa assim acontecer?". Né? :-| Bjo, manazinha, bom final de semana!!! :-D

denilson prata disse...

amo seus escritos!!parabens!

denilson prata - rj

Karol Khaled disse...

o que retratei em imagem, você revelou em palavras.
Torço por dias melhores.
abraços! ;)